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O que é, afinal, o PIG?

Publicado em 04 de Março de 2010
Categoria: política brasileira
Correio Progressista
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.
(Jorge de Lima, em O grande circo místico)

Muito se tem falado na blogosfera e na mídia alternativa sobre o famoso Partido da Imprensa Golpista. Pouco se tem analisado da sua natureza, ficando as críticas apenas no comportamento, e não no sentido de sua atuação.

Duas coisas precisam ser ditas de antemão: a imprensa tradicional vive severa crise, e os partidos reacionários vivem crise tão severa quanto. Desta última, basta mencionar o desempenho francamente decrescente do DEM, ou então a falta de discurso do PSDB — que está com medo de relembrar seus áureos anos de governo com Fernando Henrique Cardoso. Quanto à crise da imprensa, trata-se da tão falada queda da venda de jornais, da dificuldade para manutenção do monopólio televisivo — atualmente em substituição por um oligopólio — e, claro, de um ataque paulatino ao monopólio da informação, e que vem sendo realizado por rádios e televisões comunitárias, uma ou outra publicação impressa, muitos blogs e um grande portal (o Vermelho) acompanhado de outros com menor audiência. Essas duas crises parecem gerar uma grande radicalização de ambos os setores, a qual, por sua vez, retroalimenta a crise ao isolar partidos e meios de comunicação da mente dos brasileiros. É uma grande vitória do governo Lula e dos movimentos sociais.

Pois bem. Nos últimos dias, muito se comentou um seminário, realizado pelo instituto Millenium, intitulado “1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão”. O nome é propício para que seja diretamente vinculado ao PIG, pois mostra afinidade com seu discurso de que a democracia brasileira correria perigo. Eduardo Guimarães chamou de “reunião dos barões da mídia”. A agência Carta Maior disse que Grande mídia organiza campanha contra candidatura de Dilma. Quanto à estratégia deles, tudo certo. Quanto ao conteúdo por trás isso, nada mais errado.

Vamos ao que interessa: o que é o instituto Millenium? Quem o dirige? A quem ele serve? Acredito que a resposta à segunda pergunta responda também as demais. A composição da diretoria (“conselho de governança”) desse instituto é a seguinte: 6 pessoas ligadas ao capital financeiro (principalmente executivos de bancos); 3, ligadas à mídia; 2, ligadas ao capital produtivo (na verdade, muito mesclado ao capital financeiro, como é próprio da etapa imperialista do capitalismo); 1 professor universitário. Como se vê, apenas um quarto da diretoria é ligada ao PIG. Os demais, são representantes diretos do capital, exceto um professor universitário.

O tal fórum sobre “democracia e liberdade de expressão” tratou, é claro, das estratégias midiáticas para derrotar o projeto nacional e popular do governo Lula nas eleições de 2010. Neolacerdismo puro, sem dúvida, uma verdadeira volta à guerra fria — até onde a farsa de se repetir a história pode ser verdadeira. Porém, não se trata simplesmente de defender interesses de uma “imprensa” mística, um ser etéreo acima das classes sociais. Sabemos muito bem que a mídia serve a quem lhe dirige, seja o capital, seja o trabalho, ou até mesmo intelectuais com a pretensão de representar um ou outro grupo da sociedade. Aí está o xis da questão: tratou-se naquele encontro de afiar as armas ideológicas da burguesia contra o trabalho — e até mesmo do setor dominante dentro da própria burguesia (o capital financeiro) contra os setores menos privilegiados da mesma (em geral o capital industrial menos financeirizado). O PIG é a arma ideológica da burguesia. Não a única arma, mas a preferida, pois é mais direta, mais rápida, e mais controlada.

Chegamos hoje ao mesmo ponto que a Inglaterra de 1861: “Políticos do continente, que imaginam que na imprensa de Londres eles têm um termômetro para o temperamento do povo inglês, chegam inevitavelmente a falsas conclusões.”11MARX, Karl. Debates sobre a liberdade de imprensa e comunicação. In: Liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 28. Pode-se dizer que, a se julgar pela imprensa burguesa, o Brasil viveria uma ditadura atroz, que essa imprensa livre tem o dever de exterminar: a ditadura do voto popular. Na falta de armas melhores e na necessidade de se criar um ambiente propício a seu próprio governo, a burguesia brasileira sonha com a impossibilidade descrita por Marx: “se a imprensa fosse tudo, realizaria todas as funções de um povo, e este se tornaria supérfluo.”22MARX, Karl. A opinião dos jornais e a opinião do povo. In: Liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 185.

Notas:
1MARX, Karl. Debates sobre a liberdade de imprensa e comunicação. In: Liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 28.
2MARX, Karl. A opinião dos jornais e a opinião do povo. In: Liberdade de imprensa. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 185.
Autor: Leandro Arndt
Temas: burguesia, PIG
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